Cleide Canton
 


Encontro nos teus contos o meu canto,
envolto ainda em sonhos cristalinos,
alheio a dissabores peregrinos,
perdidos no perdido do meu pranto.
 


E cobre-se de azul o terno manto,
tecido com agulhas maestrinas,
num céu onde as estrelas pequeninas
rebordam as bandeiras que levanto.
 


E surges, atendendo ao meu chamado,
meu anjo azul de Vênus batizado,
soprando aos ventos brandos seu clamor.
 


Invade-me o frescor da madrugada,
e aos braços dele entrego-me, cansada,
num áureo alar de cândido esplendor.


Cleide Canton

 

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Marlene Rangel Sardenberg
São Fidélis "Cidade Poema"/RJ


Olhando a velha e desbotada foto
sobre o armário do meu quarto triste,
lembrei-me de um passado tão remoto...
A menina da foto ainda existe?
 


Onde andará a menininha doce,
cheia de sonhos de contos de fada
como se a única herdeira fosse
da tal felicidade tão sonhada!
 


Dela era o jardim cheio de flores
e o bem-te-vi que cantava na janela
só para vê-la quedar-se embevecida...
Era dona de todos os amores;
tudo era dela, tão somente dela:
os pássaros, a lua, o sol, a vida...
 


Pés descalços, corria no gramado,
Jogava amarelinha e, ao fim do dia,
olhando a Estrela d'Alva no horizonte,
adormecia rezando Ave-Maria.
Depois montava na garupa do cavalo
branco e veloz do príncipe encantado
em direção a um castelo bem distante
e jurava para sempre amá-lo.
 


Mas veio o vento da desesperança
e fez em tiras seu vestido branco
bordado para primeira comunhão,
desfez do seu cabelo a longa trança,
levou para sempre seu sorriso franco,
varreu os sonhos do seu coração.
 


(Quando o tempo apaga nossos sonhos de bonança,
os anos morrem sobre os anos frios
e o coração fica vazio de esperança).
 


Por onde andas, menininha linda?
Sai da foto e vem falar comigo!
(Ela me olha e finge que não vê).
Aparece ao menos uma vez na vida!
Sei que posso ser feliz ainda
se algum dia eu encontrar você.
 

 

Marlene Rangel Sardenberg


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Naidaterra
 


A noite está fria,
abraço-me forte para
tentar me aquecer das
farpas geladas que açoitam
meu coração sentido...
Depois de tanta mágoa
e dor tamanha... silencio...
Calo-me diante dos meus
sentidos sem indagações
e apago meus sonhos
inocentes que se vão para
uma sombra ainda indefinida...
Deixo tombar as flores e
recolho-me p'ra dentro de mim,
preciso encontrar o meu outono
de outrora, resgatar meus olhos
audazes e atrevidos que
rasgavam o céu imenso...
Ó doce outono, és o poeta das
minhas emoções, tudo o mais
é engano...
Curvo-me ao silêncio... silencio...


Naida Terra

 

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Tere Penhabe
 


Não sou poeta, agora eu vi, eu sei!
Se a dor que sinto é que me faz poeta,
Se encanto quando canto a amargura
Não quero ser poeta de alma impura
Ao derramar as lágrimas e mágoas...
 


Quero exaltar o riso e a alegria,
Falar de amor sem dor nem sofrimentos,
Prefiro ser palhaço em mil momentos,
Tendo o que eu quis num vôo de aprendiz
Perigoso e arrepiante, mas feliz!
 


Quero estender a mão ao meu irmão,
Matar a sede e fome, ser o abrigo,
Em tempo algum serei o seu castigo,
Não foi pra isso que Deus me criou ...
Quero poder fazer alguém sorrir...
 


Se mais eu conseguir será meu prêmio.
Abono dadivoso ao coração,
Que não é meu pois é do meu irmão,
E além de tudo, nele mora gente,
Que amo e quero bem, não vivo sem!
 


Por isso agora, sem qualquer demora,
Deponho esta comenda de poeta,
Não sei morrer de amor, nem de tristeza,
Quero cantar a vida e a natureza
Quero esquecer do desamor e guerra!


Tere Penhabe
 

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Midi: Samba de Verão