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José Antonio Jacob
Juiz de Fora - MG
Lá fora a vida dorme e sonha o luar...
Masco pastilhas para me acalmar,
Pois que ouço agora o som de um canto rouco.
Minha vizinha despertou sem dor,
Na certa deve estar de bom humor
E quer cantar, na madrugada, um pouco.
O galo resolveu lhe acompanhar
Batendo as asas a cacarejar,
O cão latiu, meu Deus! - Que sinfonia!
No muro o gato miou, mas foi de horror,
E a campainha do despertador
Tocou: e não amanheceu o dia...
Minha vizinha enquanto canta sonha,
Tapo os ouvidos com o viés da fronha,
Quem sabe se ela achou um novo amor?
Reviro-me por cima do lençol,
O céu é negro, anda distante o sol,
Cubro a cabeça com o cobertor.
Vou acabar queimando a minha pilha,
Porque ela está lavando uma vasilha
Batendo a lata na torneira fria...
Desisto de dormir, penso e levanto,
Ela não cessa seu rouquenho canto
E lá na rua uma coruja pia.
Sim: eu envelheci! (não vou negar).
O tempo foi passando devagar,
Franziu-se a minha testa e deu um nó...
E agora eu vou achando menos graça,
Pois cada vez que em mim o tempo passa
Eu vou ficando cada vez mais só.
Não! O destino não me quer assim,
Que eu seja um cravo, caído no jardim,
Vendo a vida florir nas ramas cheias...
E que esperanças podem ter as flores
Que, ainda na adolescência das suas cores,
Vão perfumar as ilusões alheias?
Percebo, na vidraça, a chuva fina,
E ao longe, num filete que ilumina,
Um risco acende o céu e depois corre...
Reclino-me no vidro e penso Nela,
A noite dissolve-se na janela
E dos meus olhos a saudade escorre.
Puxo a cortina para olhar lá fora,
Que a noite agora está sonhando a aurora,
E a tristeza que vem me desagrada.
E a neblina dolente da garoa,
Que no ladrilho da parede escoa,
Desenha nome dela na calçada.
Volto para o meu quarto desolado
E ainda escuto o rouquejar ao lado:
Minha vizinha zumbe sem ter fim!
Não posso me mudar dessa cidade,
Nem deixar para trás minha saudade,
Que essa lembrança vem atrás de mim.
Olho no armário e vejo, pendurados
Como sacos de pano costurados,
O velho paletó de linho claro
E a calça desusada sem botões...
Embaixo, dois sapatos, sem cordões,
São as imagens do meu desamparo!

Todos os direitos reservados ao autor
Do livro Almas Raras de José Antonio
Jacob
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